março 7, 2018

Valeu, Mestre Vieira!

Minha homenagem ao rei da guitarrada, que deixou a música paraense órfã no último mês

By Bruno Terribas In OUÇA

Joaquim de Lima Vieira (1934-2018) — Mestre Vieira — foi um dos meus maiores professores da cultura paraense. Há alguns anos e não lembro como, conheci sua trilogia de LPs “Lambada das Quebradas”, gravados entre 1978 e 1981.

lambada das quebradas mestre vieiralambada das quebradas 2lambada das quebradas 3

Aquelas novas canções, que eu escutava freneticamente, falavam sobre as coisas de uma imensa parte do país que eu até então desconhecia, e me causaram curiosidade insaciável desde então.

A guitarrada, com sua sonoridade original de acordes, me transportou para uma conexão entre os ritmos caribenhos e a cumbia, dando origem a uma musicalidade brasileira que eu sequer imaginava existir.

Em 2014, quando da minha primeira visita a Belém, corri para encontrar um LP do Mestre. Contente, levei para SP o disco “Lambadas e Cambarás” (1990), que me chamou atenção pelas inevitáveis fotos de capa e contracapa mostrando as águas amazônicas.

Com Mestre Vieira conheci a lenda do mapinguari (Melô do Mapinguari), aquele monstro que “mora lá no pé do tauari”, uma árvore da floresta. Me assustei a história do menino teimoso que não segue a recomendação da mãe e dá de cara com um fantasma numa encruzilhada na floresta (Lambada do Fantasma). Fiquei sabendo da divertida história da chegada da baleia no município de Barcarena (PA), município natal do rei, mais de 100 km distante do oceano (Lambada da Baleia). Ou ainda a sequência sobre o bode que dava muito trabalho e finalmente foi vendido no Ceará (Melô do Bode e Vendi o Bode).

Além de tudo, conhecer a obra de Vieira me abriu um caminho imenso de novos interesses musicais. Surgiam hiperlinks que me levavam a conhecer mestres como Curica, Laurentino, Solano, Aldo Sena e Manoel Cordeiro. Registro ainda a brilhante coletânea sampleada com artistas contemporâneos, reunidos no disco “Mestres da Guitarrada – Música Magneta” com direção do DJ Dolores.

Felizmente, nosso rei da guitarrada pode ser homenageado muitas vezes em vida. Em 2012 foi gravado o DVD “Mestre Vieira ao Vivo no Theatro da Paz”. Este lindo concerto levou Vieira ao imponente palco do teatro belenense construído para receber a espetáculos líricos. Naquela noite ali se apresentaram artistas da nova geração para tocar reverenciar o Mestre. Backing vocal com Keila Gentil e William Love, da Gang do Eletro, participação de Gaby Amarantos, Lia Sophia, Fernando Catatau, Pio Lobato e Felipe Cordeiro. Além das participações de peso dos gigantes Sebastião Tapajós e Manoel Cordeiro.

Justiça seja feita, confesso que somente ao ver a gravação do show foi que me dei conta de que a voz que interpreta as canções, que até então eu atribuía ao Vieira, era na verdade de Dejacir Magno. Ele faz parte do grupo Os Dinâmicos, que o acompanhou entre 1970 a 1990.

Obrigado Magno!

Valeu demais, Vieira!

PS.: escolhi para o post uma das minhas faixas preferidas da carreira dele. Foi executada num dos episódios da série Serra Pelada, exibida pela TV Globo em 2014.

 

Atualização! PS2: poucos dias após a publicação deste post, a Fundação Cultural do Pará promoveu a II Feira Livre de Arte e Cultura. Fechando a programação vi um emocionante tributo ao rei no show do projeto “Os FIlhos do Mestre”, formado pelos descendentes de Vieira. Antes da apresentação, comprei o LP de “Lambada das Quebradas 2” numa das bancas da feira.  Por sorte, encontrei o Dejacir Magno, que me honrou com seu autógrafo na capa deste disco histórico!

Magno, penúltimo da esquerda para a direita, ao lado do Mestre Vieira (último)

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