janeiro 19, 2017

Se você viesse pra Belém

By Michele Escoura In SINTA

Se você viesse pra Belém, te levaria pra tomar cerveja na beira do Guajará. Sabor açaí, bacuri ou taperebá à escolha do seu humor. Te conhecendo bem, ia passar pelo cardápio todo, sem essa coisa chata de ter que escolher entre o céu ou a terra. No mormaço refrescado pela brisa do pôr do sol, estaríamos justificadas.

Depois, à mesa do bar, você me contaria das suas viagens novas, daquele lugar que só você mesma pra desbravar antes de todo mundo. Me contaria dos seus novos métodos de rever a vida, das resoluções para o ano novo e também de como o pessoal da faculdade continua o mesmo, mesmo achando que tá tudo diferente.

Aí a gente se apertaria ali mesmo, no beira rio, pra ver as pessoas deslizarem como peões, daqueles que a gente brincava de criança, com as roupas floridas e rodadas as quais dançam o povo deste lugar. Os tambores tocando no ritmo das nossas risadas e sem que câmera alguma de celular pudesse acompanhar, ficaríamos i-m-p-r-e-s-s-i-o-n-a-d-a-s com os homens rebolando sem pudor. Aqui não tem essas frescuras dos boys paulistas que acham que a cintura deles tem que parecer viga fincada no asfalto. Não sabem o que estão perdendo.

Também te levaria pra comer a maniçoba do vegetariano. Claro que sei que o papo de vegetarianismo não pegou muito com você, como sei. Mas sei que você viria com essa onda de comer pra não fazer desfeita e se lambuzaria na iguaria. E não é que vem com banana chips de acompanhamento?

Dali podíamos dar um cheiro na Dona Coló do Ver-o-Peso. Toda vez que passo por lá, sigo logo por entre as ervas pra dar-lhe um beijo e ela já me puxa um banquinho, toda faceira, perguntando da vida. Te contei que ela preparou uma garrafada pra gente? Fui buscar numa terça-feira e, antes de me entregar, me abriu um sorrisinho e acrescentou duas gotinhas do ingrediente misterioso. Disse que é pra cuidar de mim. Nessa terra distante, é ela quem tem me dado um colo de carinho de vó. Saudades da minha avó… Vai ver que é por isso que agora quando sinto do cheiro da priprioca, lembro logo da Dona Maria sentada na sua cadeirinha esperando passar um vento pra aliviar o bafo quente paulista.

Ah! Depois eu ia te mostrar o jacaré do bosque do Emilio Goeldi! Como tudo que é grande por aqui, tem “açu” no nome e uns 80 anos na casca, é o que dizem. Mas Jacaré-Açu parece pouco pra ele. Quem sabe um rebatismo? Ronaldo? Alfredo? Diamantino? Você é ótima pra nomes! E em poucos dias teríamos conseguido fazer o levantamento preciso de todas as variações linguísticas de “éguas” que até hoje não consegui catalogar. E eu morreria de inveja de ver você poetizando um pai d’égua pra moça do tacacá como se tivesse nascido aqui na Nazaré.

E aí a gente poderia tentar a receita de risoto com tucupi e a de bolo de açaí que ate agora só ensaiei fazer. E poderíamos ir pra Praia do Fundão lá em Cotijuba beber uma cerpinha de frente pra baía do Marajó ou então uma caipirinha de cacau lá na Ilha do Combu. Faríamos pose com a samaúma, daríamos risada de termos virado abraçadoras de árvore e engataríamos o papo com o pessoal da mesa ao lado, tendo a impressão de que aqueles eram amigos de toda a vida. Sempre acontece por aqui. Daí correríamos pra casa antes do toró da tarde cair, ficaríamos digerindo o açaí e aquelas cores e aquele abraço da Dona Coló e aqueles novos amigos enquanto nos balançaríamos na rede e aceitaríamos aquilo tudo que nos tornamos. E, desde então, falaríamos em saudade.

à Marina e Joana, viajantes de novembro.

Comentários

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1 Comment
  1. Eduardo janeiro 19, 2017

    Puxa vida, que lindo convite às lembranças.
    Obrigado

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