junho 15, 2016

Quem não gosta da comida paraense, bom sujeito não é

Tirando a barriga da miséria na Ilha do Combu

By Michele Escoura In EXPERIMENTE

Os meses de mudança significaram a abertura de nossos corpos para a experimentação de um novo mundo. Com o deslocamento dos quase três mil quilômetros, vieram também as fissuras naquilo tudo que a gente estava acostumado a sentir. Os poros da pele se abriram para o calor úmido que nos envolve, os ouvidos deixaram entrar os samples cintilantes de luzes neon e o paladar explodiu com a chegada das novas sensações.

A não ser que você seja reconhecido como um homem e caia no duelo apaixonado do Re x Pa, comida é o principal tema de aproximação entre desconhecidos em Belém. No último final de semana, sacando minha ‘estrangeirisse’ estampada na cara, a senhora que acompanhava o cortejo do Arraial do Pavulagem ao meu lado primeiro perguntou se eu já tinha provado maniçoba, depois meu nome. Me contou em detalhes seu preparo durante a semana do Círio e ainda ofereceu um tiquinho da que fará em outubro próximo. Não achei que aquela generosidade fosse uma oferta de verdade (coisa de paulista) e, minutos depois, perdi a cozinheira e a maniçoba no meio da multidão.

Não importa de que classe, se nascido em Belém ou no interior, se neto de português ou de índio. Aqui, comida unifica. E paulista, esse bicho com fama de petulante, só ganha confiança depois que reconhece a soberania da alimentação popular. Não à toa Belém ganhou o título de Cidade da Gastronomia Criativa da Unesco no ano passado. Não à toda todo ano tem festival de gastronomia na rua e todo dia tem peixe fresco com açaí no ver-o-peso. É impossível passar por aqui imune à deixar sua “boca muito louca” como cantou a rainha do carimbó chamegado .

Quando partimos pra Ilha do Combu, dias desses, o objetivo era experimentar o marasmo do beira-rio durante o dia. Era uma alternativa ótima de conciliar o banho de água doce com a falta de tempo para as viagens mais longas. De frente para o centro de Belém, a ida até o Combu dura cerca de 15 minutos de barco “po-po-pô” que se embarca na Praça Princesa Isabel (cinco reais é o preço para se chegar no paraíso). Lá, vários restaurantes são os pontos de parada e descida do povo. Fomos naquele maior e que outros amigos já tinham passado antes.

Mapa do Instituto Sócio Ambiental – Ilha do Combu – Área de Proteção Ambiental (https://uc.socioambiental.org/uc/3004)

Sobre a palafita, na beira do rio, o restaurante é um grande deck de madeira, em sua maior parte coberto, de onde de um lado se vê a silhueta de Belém todinha e de outro o verde da floresta. Dá pra se embrenhar na mata e, entre os pés de cacau, tirar uma foto com a sumaúma gigante ao melhor estilo turista. Até então, eu não tinha nenhuma intenção de fazer o texto de estreia da seção de comidinhas lá, mas depois que abri o cardápio… Minha santa padroeira dos olhos-maior-que-a-barriga!

Pra início de conversa, uma caipirinha de cacau. Isso mesmo. Caipirinha. De cacau.
Manas e manos, que era aquilo? Se você imaginou um trem meio achocolatado, esquece! Era feita com a semente da fruta que (olha a paulista de novo) é branca! A sementinha vem toda envolta de uma carninha de fruta, bem à lá as pinhas que eu tanto amo, só que maior. E o gosto, ah, minhas caras e meus caros… Inexplicável. Teria que tomar mais algumas dezenas para conseguir chegar num consenso comigo mesma para traduzir em palavras.

 

21 de maio de 2016-Ilha do Combu-6

Depois da porteira aberta, fiz da jaca pantufa com mais uma caipirinha de taperebá (cajá para o povo do centro-sul) e outra de cupuaçu. Essa última, eu já estava mais pra lá do que pra cá e bebi enquanto refrescava a cuca na bica de água gelada. Imagine só…

Ilha do Combu-21 de maio de 2016-5

No meio do dia, um rango divino. No calorzão, ouvindo um carimbó ao fundo, começamos com um bolinho de peixe com jambu frito e acompanhado de um creme de tucupi (sim, fica maravilhoso e eu aceito receitas!). A porção era pequena demais pro tamanho da fúria do meu paladar. Por mim, passava o dia todo repetindo o menu. Mas a curiosidade (e a fome), depois me levou para um peixe (tainha) na brasa, com arroz branco e farofa com a farinha da mandioca amarela (“mandioca brava” para paulistas), um clássico pelas bandas do norte.

01 - Bolinho de peixe 02 - Peixe assado

Antes de voltar pra casa, pra me despedir meio que a contragosto, nadei de braçada no glorioso açaí com farinha de tapioca. Geladinho e crocante, como deve ser a sensação de caminhar nas nuvens. A cada colherada, sentia meu corpo infinitamente grato por estar ali. A cada gole, a vontade de sair dando pulinhos pela escolha de estar aqui. E, a cada dia, entrar em consenso com esse povo todo: quem não gosta de comida paraense, bom sujeito não é.

Entre o barco e a rede, o que importa é o balanço nessa sesta infinita que é a vida no Pará!

Um vídeo publicado por Café com Tamaquaré (@cafecomtamaquare) em


E a maniçoba deste texto vai em homenagem à não-estrangeira (porque gente de Minas têm passe livre no mundo) Ana, do Projeto Andarilha, que me apresentou a variação da maniçoba índi-vegetariana do Restaurante Govinda – a qual já vale outro post.

Comentários

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4 Comments
  1. WANDIRA BASTOS DE SOUSA _ agosto 3, 2016

    Adoro esses comentários carinhosos sobre minha terra querida: Belém do Pará…amo muito tudo isso, sou uma paraense apaixonada pelo Círio de Nazaré, o delicioso açai, a chuva da tarde e a hospitalidade natural dessa gente boa, desse povo pai d’égua….

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    • Café com Tamaquaré agosto 5, 2016

      Wandira, estamos só amores por essa sua terra maravilhosa! A cada sabor novo, uma sensação de “como vivi até aqui sem isso na minha vida?” !
      Obrigada pela leitura e pelo comentário! ❤️

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  2. elenice junho 6, 2017

    Boa Tarde, gostaria de saber se voces saberiam me informar se consigo algum lugar que eviam popa bacaba e açai branco para outro estado.

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    • Bruno Terribas julho 27, 2017

      Boa tarde Elenice. Não conhecemos, infelizmente!
      Acredito que estes produtos não são processados industrialmente, o que deve dificultar o envio.

      Obrigado

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