maio 15, 2016

O que saquei ao pedalar mais de 1.000 km por Belém

By Bruno Terribas In SINTA

Ao mudar de São Paulo para Belém, eu, ciclista-paulistano-do-centro, me deparei com algumas diferenças interessantes no trânsito local.

Meu trajeto diário é de 30km para ir e voltar do trabalho, num percurso quase exclusivo de ciclovias/ciclofaixas. Em 2016 foram 1.344,7 km em mais de 69 horas montado na magrela.

Em alguns momentos me senti nos vídeos de trânsito de tuk tuk na Índia, ou parte de uma brincadeira de carrinhos de bate-bate da vida real. Mas felizmente me saí bem até agora. A bike nem tanto. Após aguentar muita chuva, apresentou alguns problemas. Por isso a deixei de castigo por alguns dias…

Vamos às primeiras lições sobre ser ciclista em Belém:

      1. Sua vestimenta de ciclista urbano cosmopolita te faz virar um extraterrestre do trânsito

Preocupado com o conforto e segurança no trânsito para encarar o percurso, providenciei alguns itens complementares aos que já possuía: luvas novas, bermuda de ciclismo, camisetas esportivas de cores claras, protetor de gel para o banco, espelho retrovisor grande angular, buzina elétrica de 160 decibéis, faróis traseiros e dianteiros para a bicicleta, capacete, caixa de ferramentas, câmara reserva para pneu e, item essencial, capa de chuva corta-vento na cor “amarelo marca-texto”.

O efeito colateral dessa produção foi ter me tornado um corpo estranho em meio a meus pares. Como revelado em pesquisa recente, o caminho para local de trabalho é o principal destino dos ciclistas. Em consonância com os dados, constatei que, em dias úteis, a vestimenta mais comum para pedalar aqui é o uniforme de trabalho. Na maioria das vezes calça e jaleco de manga cumprida, o que certamente faz suar em bicas.

Nos demais itens de vestimenta, o capacete é algo raro (chutaria menos de 5%) read this post here. Calçados: botas e chinelos. Capa de chuva: comum, daquelas amarelas feitas de plástico grosso.

Quanto aos equipamentos de segurança… infelizmente (inclusive pelo preço) é raro ver alguém vestindo. O que traz muita insegurança para todos, principalmente para o próprio ciclista. À noite, por exemplo, sob determinadas condições de iluminação é possível ver apenas “vultos”, mesmo a poucos metros de distância. Encontro estranho esse: um extraterrestre paulista com fantasmas paraenses!

      1. A contramão é o sentido mais comum de se pedalar

Muitos ciclistas têm impressão de que andar no sentido dos carros é inseguro. É uma ideia válida, especialmente pelos motoristas não respeitarem o espaço adequado de ultrapassagem.

No entanto, pelos motivos explicados didaticamente neste ótimo vídeo, essa é uma prática extremamente insegura no trânsito. Quando estamos na condição de pedestres, também podemos ser vítimas deste comportamento: você está olhando os carros que vem do sentido do trânsito para atravessar e zum!… passa um ciclista na contramão. Você toma aquele susto e sente que por poucos segundos poderia ter sido atingido pela bike.

O pior é que mesmo nas faixas exclusivas é comum encontrar alguns “sem-noção” pedalando no sentido errado!

 

      1. A bicicleta é um transporte coletivo

A imensa maioria das bicicletas belenenses conta com uma garupa junto ao quadro, o que permite o transporte do segundo passageiro. Nos horários do início da manhã e do fim da tarde arrisco dizer que são mais da metade as bikes com duas pessoas. Mas há casos de três pessoas (carona na garupa e no quadro), em geral pais levando filhos pequenos para a escola, um na garupa e outro no banquinho do quadro. Recentemente vi um adulto e três crianças (uma menor no colo da criança maior da garupa)!

 

      1. Faz-se frete (com bike)

Além dos itens comuns de se ver nas garupas, como mochilas, bujões de gás, galões de água e engradados de cerveja, presenciei recentemente um senhor pedalando com um tanquinho (!) nas costas. E devo reconhecer que desenvolvia boa velocidade!

 

      1. O Sound system sobre duas rodas

Na região do comércio, encontra-se vendedores de música em bicicletas adaptadas com caixa de som. Por que vendedores de música? Porque além de CDs e DVDs eles gravam arquivos de música formato .mp3 em pen drives para os clientes. Além das mídias, eles carregam mesa de som com microfone para anunciar “os maiores sucessos do brega” ou do melody, e até mesmo do gospel.

Djavan (à esquerda) ) e seus amigos

 

      1. As ciclovias não são coisa do “petê”

A prefeitura de Belém é tucana há quatro anos, e a administração local promete concluir 50 km de faixas exclusivas até o fim do ano, totalizando 128 km na cidade (a capital paulista, com área urbana 6 vezes maior, tem 385 km).

A cor das ciclovias e ciclofaixas é vermelha, assim como em São Paulo. Lá, muito irracionalmente (ou racionalmente, de acordo com certos interesses), tentou-se partidarizar essa importante política pública, a ponto terem sido relatados casos de motoristas que mandaram ciclistas “para Cuba” (?!). Por aqui ainda não percebi qualquer objeção às ciclovias e ciclofaixas.

 

      1. Não se estresse

Apesar de muitas práticas inseguras no trânsito – relatadas acima – e outras como “furar” farol vermelho, algo que me chamou atenção foi não ter presenciado muitas brigas de trânsito. Inclusive mesmo me estressando algumas vezes com outros ciclistas, nunca fui respondido. Me senti até um tanto deslocado, pois os demais olham com certo estranhamento alguém gritar com outras pessoas na ciclovia. Portanto: keep calm, no stress e boa pedalada!

2014.08.13 - PA - Belém - Brasil: Agentes ciclistas da SEMOB começam a operar na ciclovia da avenida Almirante Barroso

Foto: Agência Belém

 

Comentários

comments

2 Comments
  1. […] Pobre” de R$ 100, comecei a registrar algumas cenas no meu trajeto diário de 35 km de bicicleta. Alguns prints depois, compartilho com vocês algumas das situações mais interessantes do […]

    Reply
  2. […] milhares de usuários de bikes teriam um certo alívio. Apesar do desânimo inicial em dar as primeiras pedaladas, praticar essa […]

    Reply

Leave a Comment