fevereiro 1, 2016

Mudança

By Michele Escoura In SINTA

Belém fez 400 anos. E eu é que ganhei-a de presente no dia seguinte.

São Paulo se despediu com frio e garoa. Cafona de clichê. Eu me despedi com um pão de queijo e capuccino.

No último dia, desci a Augusta. Talvez tenha me dado conta de que era onde mais eu me sentia em São Paulo. Talvez onde eu mais me sentia São Paulo.

Cada vitrine nova assusta quem não pisava ali apenas por algumas semanas, e lembra que São Paulo tem dessas, de te jogar na cara que ela não depende de você. Vai embora e te atropela se você não estiver acordada.

Me lembrei do motivo de sair. Tenho sono demais. Não presta numa cidade que tem como principal habilidade sumir com o tempo.

Vai ver é artimanha.

Desci a São Luís. Cruzei a Paulista. E desviei dum grupo de engravatados que fotografava a cadela amamentando seus filhotes na avenida. Seu companheiro, o homem da rua, esperava de fora da roda o momento para votar ao colchão úmido que lhe servia de casa. Ele não saía na foto tão paulistana.

Cheguei enchendo de pontos brancos o chão da terra nova. Era a psoríase me lembrando que há coisas que não se pode controlar. Neve na linha do equador.

Em casa, cheguei com rojões estourados das bexigas com as cores da bandeira do Pará que encobriam o chão da sala. Teve estouro de espumante e filhote no tucupi de almoço. Sempre minha comida favorita no mundo, seja Belém ou em Mosqueiro.

Nos dez dias seguintes fomos engolidos pelos metros quadrados suspensos na floresta. Deixei a caixa de decoração por último. Talvez para aumentar o gozo de ver o serviço completo e bonito. Como boa virginiana que sou, dormia e acordava pensando no destino das 61 caixas marrons que se espalhavam pelos cômodos. Ô signozinho bom de fuder com a vida da pessoa. Não tive paz até que tudo estivesse em seu lugar.

Vai, devo admitir que o armário das tapauérs ainda tá caótico que nem final de bloco de carnaval. Revirei os móveis da sala quatro vezes. A cama do quarto, três. Primeiro era o sol equatorial na cara às sete da manhã, depois a falta de vento na esquina da parede. Por fim, o meio do quarto e uma boa cortina de blackout resolveram o problema.

Ah, aliás, já tem blackout pela casa toda. Pra não assustar visita que vê janela de quarto sem veneziana. Um padrão curioso da engenharia amazônica.

As plantinhas foram as últimas a chegar na casa. Onze, depois da baixa da muda de jiboia que não pegou. Imitei uma amiga do Rio e botei uma samambaia linda em uma prateleira sobre a televisão. Paisagem para compor com Cauã na novela das nove. Quase todas vieram do tiozinho do outro lado do cemitério. A calçada era cheia de vaso, num código que pra mim era difícil entender que estavam à venda. No corredor do lado da peixaria (e do DISK AÇAÍ – brilho no olhar <3 ), ele mora num cômodo improvisado e rodeado de um verde que parece crescer desordenado. As aparências enganam. Depois de tomado certo porte, ele bota a planta no balde e põe na calçada pra chamar cliente. É sua estratégia de marketing. Pra comprar, tem que ir no portãozinho de grade branca descascada e tirar ele da cama. Gritaria mesmo. Ainda mais se for na hora da sesta do almoço. Muito coisa de paulista essa de não respeitar a sesta. Era tudo “cinco” e ele trouxe as novas companheiras todas num baita carrinho de mão pelo bairro.

O bairro, aliás, dá manga pelas sarjetas. É cada mangueira que, nossa, que beleza. Um alívio fresco pra quando tá sol. E um perigo na virada da chuva. O chaveiro disse que leva mangada na cabeça todo tempo. Aproveita pra catar tudo depois e juntar na sacolinha do mercado da esquina. Bruno, galante que só, ganhou de presente a sacola do dia e fez delas suco pra janta. Um quarteirão pra lá tem uma praça com coreto de ferro antigo, que parece cenário de época. Tem nome de padre que, descobri depois, era desses que hoje poderiam ser chamado de bolivariano. Achei um bom sinal. De tarde tem água de coco e gente correndo contra o peso sob as  leggings mais coloridas que já tive notícia. Num charme brega que só o Pará proporciona. Bruno entrou na onda e agora é ciclista de verdade. Trinta quilometros com capacete, luvas, luzes piscantes, blusa florescente e um daqueles shorts de cóton com almofada nas partes baixas todos os dias. De dar inveja. E a visita paraense que veio aqui em casa, feliz com a coincidência de estar no mesmo prédio de um antigo amigo, deu a confirmação que o vizinho do décimo quinto esperava “é o ciclista que sai todo dia paramentado? Tinha certeza que era paulista !”. Viramos piada, faz parte.

Merecemos.

Nova vista

Comentários

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1 Comment
  1. […] possível ver apenas “vultos”, mesmo a poucos metros de distância. Encontro estranho esse: um extraterrestre paulista com fantasmas […]

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