outubro 14, 2016

Enlaçada pela Rainha da Amazônia

O impressionante Círio de Nazaré

By Michele Escoura In SINTA

Combinação nenhuma de palavras é capaz de explicar as sensações de quem vê pela primeira vez o Círio de Nazaré. Essa é uma singela tentativa.


Na quinta-feira a ansiedade para a chegada do Círio aqui em casa tinha se confundido com a ansiedade para a chegada de Dona Carmelita e Dona Laura. Era a primeira vez delas em Belém e, ainda, a primeira vez num avião de D. Laura – Heliópolis ficou pequena pra vontade de desbravar o mundão dessas duas!

Belém as recebeu de braços abertos, um calorzão sem chuva que eu ainda não conhecia e já toda iluminada para a festa. A Praça Batista Campos tá brilhante de um jeito que concurso de decoração de natal do interior de São Paulo nenhum pode botar defeito. Tem arabesco de luzinha amarela nos postes e caem gotas de luz das sumaúmas gigantes, como das mangueiras em toda Avenida Presidente Vargas. Pelo caminho que a santa passa, é luzinha de natal que deixa o céu, tampado pelas sombras das árvores, estrelado.

Na frente das casas, é comum ver um pôster com a imagem oficial da festa grudada à durex nas portas e réplicas da imagem de Nossa Senhora de Nazaré arrodeada de flores pelas entradas de prédios. E do dia pra noite as repartições apareceram todas enfeitadas com bexigas amarelinhas pelas portas. É a cor da “santinha”, foi o que disse o taxista.

Aliás, a intimidade dos paraenses com a santa é digna de um capítulo à parte. “Santinha”, “Mamãezinha” e “Nazinha” parecem descrever bem a ternura que se espera dos dias de festa: num diminutivo das palavras que parecem evocar o aconchego carinhoso de um abraço de vó. A cidade se põe num ritmo outro que há dias a impressão que me dava, de paulista, era que o natal estava chegando. “Feliz Círio” começa aparecer nas conversas junto com os enfeites pelas calçadas, num engrenar de clima festivo entre amigos ou quando o moço da castanha devolve o troco.

E como no natal lá de casa, a festa parece que exige também roupa nova. Mas não qualquer uma. Por onde se olha, as banquinhas de camelô já começam a pipocar com cds temáticos do Círio e as camisetas da santa. Um comércio sem fim de blusinhas, regatas, baby-looks e afins com as mais variadas estampas da padroeira com a rubrica “Círio de 2016” para conferir a novidade da peça. Tem santa em traço barroco, P&B realista e até versões pop-art, pra todos os gostos e bolsos! De uma semana pra cá o item também virou peça de luxo em vitrine de boutique e tem gente que bota aplicação de renda, paetê ou pérola, a depender da personalidade da freguesa. E é fácil de encontrar uma mesma estampa eleita pra ser usada pela família inteira. Adulto, criança, idoso, todo mundo com a mesma camiseta. O importante é sair com o uniforme novinho da santa. Eu, que saí com minha camisetinha velha de faculdade, fiquei um peixe fora d’água.

Junto com nossas duas convidadas, mais uma multidão de romeiros foi chegando aos poucos do litoral e do interior. Na sexta, em passagem pela Basílica, era gente que não parava de entrar. Pés enfaixados e cabos de vassouras servindo de muletas para se aproximar de um dos pontos de chegada das promessas. “Caminhada Castanhal” dizia uma das camisetas pra gente saber quantos quilômetros tinha naqueles pés. O choro ia descendo e marcando o rosto de lama quando a lágrima misturava com a terra da estrada. E na saída da igreja, demorei pra entender que aqueles carros parados descarregando água dos porta-malas apinhados eram de pagação de promessa. A montanha ia se formando e dando a dimensão do que estava ainda por vir.

Não consegui decorar até agora as procissões todas que antecedem ao domingo do círio. É tanta coisa que a única coisa que me ocorria em pensamento era: como essa santa anda! Cada ano aqui dá para fazer uma programação completamente diferente durante as festas. No sábado de manhã levamos Dona Laura e Dona Carmelita lá pra escadinha da Estação pra ver a Romaria Fluvial chegar. Não tinha nem dado meio-dia e a baía do Guajará já tava toda alegre de barco. Navios, po-po-pôs, lanchas e voadeiras de todos os tamanhos povoavam as águas desse povo das águas. Ao nosso lado, na terra, a espera do desembarque era num silêncio que eu jamais tinha vivido nessa terra sonora. Mãos para o alto e olhos fechados à espera da “santinha” que, ali, descobri ser também a “Rainha da Amazônia”.

Na corveta branca da marinha toda decorada com florzinha amarela, a santa chegou na redoma de vidro e guardada por um marinheiro negro – a cor do povo que se via também ao nosso redor. Marcadamente popular, a festa mais esperada pelos paraenses acontece sempre no segundo final de semana de outubro e remonta à um mito de origem da imagem da santa, achada por um caboclo no igarapé. E embora seja uma festa oficial do calendário católico e agregue também os devotos da elite do estado, debaixo das varandas (que se transformaram em “salas vips” das procissões) é predominantemente o povo caboclo que desfila sua fé.

Em terra, a “santinha” seguiu alguns quilômetros à frente acompanhada por uma enxurrada de motos estourando as buzinas pela avenida. O moço que me entrega água em casa disse que tinha até posto um trem novo no escapamento de sua moto pra aumentar o barulho pra santa. E um tiozinho que acompanhava a procissão em cima da bicicleta fazia questão de imitar com a boca o barulho de um motor. Era aquela maravilhosa equação entre paraenses e sonoridade de volta à normalidade. Sabe-se lá quanto tempo levou até que as quase 15 mil motos subissem pela rua atrás da santa. Mas foi só depois daquele espetáculo motorizado é que fomos esperar chegar o Arraial do Pavulagem.

O grupo reúne músicos que, desde 1987, trabalham para divulgar e valorizar as manifestações culturais amazônicas e é conhecido aqui principalmente pelos cortejos coloridos e dançantes das festas juninas. No mês de São João, foram eles que tomaram a avenida agora reservada à santa e que conseguiram me arrancar arrepios e lágrimas robustas frente à tamanha beleza. Aquele povo todo cantando e dançando em louvação à cultura paraense, acha que a antropóloga ia aguentar? O Arrastão do Círio, último cortejo anual do grupo, cantou e dançou em homenagem à “mamãezinha” e, adiantando que esse seria um evento mais modesto frente aos cortes financeiros desse ano, requebrou a rua mesmo debaixo do sol do meio-dia.

Depois da Romaria Fluvial e da Moto-Romaria, a imagem ficou à espera para a segunda procissão mais importante do final de semana: a Trasladação. Botamos os banquinhos debaixo do braço e fomos procurar nosso lugar ao luar na avenida. O trajeto percorrido no sábado a noite é exatamente o inverso daquele da grande procissão de domingo. A berlinda sai toda enfeitada carregando a santa da Basílica, no bairro de Nazaré, até a Catedral, na Cidade Velha. Pelo caminho, atravessa toda a Avenida Presidente Vargas e transcorre em frente de dois lindos pontos turísticos de Belém: o Theatro da Paz e o Ver-o-Peso.

Pelas calçadas, nos esparramamos entre duas plataformas de transmissão de televisão e ficamos por duas horas só vendo gente passar. Mas era gente! Aos poucos, a rua que já estava tomada de fiéis foi se enchendo de um jeito que já não era mais possível cruzar em sentido contrário. A expectativa ia aos poucos aumentando e o suor tomando conta dos corpos. Não tinha brisa dessas noites frescas que pudesse nos alcançar no meio da multidão.

Impressionante. Impressionante. Impressionante. Essa era a única palavra que eu conseguia pensar para expressar o que foi estar diante da corda e seus promesseiros. No meio da rua, homens, mulheres, meninas, meninos, iam todos espremidos, descalços, molhados e gratos no compasso imposto pela multidão da corda. A angústia em seus olhares traduzia a batalha que era manterem-se ali, firmes naquela que é a mais difícil promessa a ser cumprida. Impressionante. Impressionante.

A cada minuto, ali do lado, impotentes, víamos as pessoas desfalecendo no meio do calor. A chuva de água mineral jorrada por cima dos promesseiros parecia evaporar em segundos, formando uma onda de calor que nos subia pela perna. Gritos, gestos e mais um corpo era levantado para ser socorrido. As mãos ainda vívidas impunham os fiéis desmaiados para cima da procissão à espera do resgate. Impressionante. Impressionante. O site da igreja diz que a corda tem 400 metros, mas eu podia jurar de pés juntos que vi quilômetros de pessoas desesperadamente apertadas passarem diante dos meus olhos. Era muito sofrimento, era muito amor. Impressionante.

Ao lado da corda, havia quem vinha em outras pagações de promessa. Competiam espaço para agradecer pela casa, pela vaga na faculdade ou pelo concurso, tudo representado em miniaturas sobre a cabeça. No meio da multidão na manhã do domingo, alguém com uma maquete de um presídio: será que entrou ou saiu? E pelas beiradas das calçadas, as crianças vestidas de anjinhos também são de promessa, disseram. Dona Laura e Dona Carmelita, sempre de celular em punhos e pés em cima das banquetas, se equilibravam pra tirar fotos no meio da multidão. Parecia ser a única forma que nos restava para tentar colocar pra fora da gente aquilo que os olhos viam. Mas se em palavras é difícil descrever o que sentimos, em câmeras digitais é difícil imprimir o que vemos. Vira tudo uma singela tentativa.

Muita vida passou diante de nós até que chegasse a vez da berlinda aparecer, dourada, no horizonte. Ficava pensando em tudo aquilo que aquelas pessoas já teriam suportado para estarem ali, diante de nós, encarando aquele sacrifício como glória. Vontade de descobrir cada uma daquelas histórias. E vontade de chorar.

Ao final da procissão, um corpo exausto. Exausto pela provação física de se segurar em meio a multidão e pela intensidade do que é o Círio de Nazaré. Um monte de palavras anotadas no caderninho e a memória recente tentando se condensar em meio a fumaça dos churrasquinhos de rua. Nada ali era pouco. Luz não era pouca, gente não era pouca, sofrimento não era pouco e muito menos gratidão era pouca. De volta pra casa, só nos restava o aconchego da maniçoba e do açaí. O que por ora, também não era pouco.


Para ver as fotos, dá o play aí e sente o clima da música tema!

 

 

Fachada do Clube do Remo

Fachada do Clube do Remo enfeitada para o Círio de Nazaré

Camisetas do Círio pelas ruas

Camisetas do Círio pelas ruas

Dona Carmelita e Dona Laura na Basílica

Dona Carmelita e Dona Laura na Basílica

 

 

Chegada de romeiros à Basílica

Chegada de romeiros à Basílica

 

 

Chegada da imagem durante a Romaria Fluvial

Chegada da imagem durante a Romaria Fluvial

 

 

Arrastão do Pavulagem

Arrastão do Pavulagem

Arrastão do Pavulagem

Arrastão do Pavulagem

 

 

Moto Romaria saindo

Moto Romaria saindo

Mar de motos

Mar de motos

Trasladação - foto por Fernando Sette do @expedicaopara

Trasladação – foto por Fernando Sette do @expedicaopara

 

 

Maquete de presídio entre promesseiros

Maquete de presídio entre promesseiros

Pessoa caminha de joelhos durante procissão

Pessoa caminha de joelhos durante procissão

 

 

Promessas

Promessas

 

 

Promesseiros da corda

Promesseiros da corda

Promesseiros da corda

Promesseiros da corda

 

 

Pessoa sendo resgatada durante a Procissão do Círio de Nazaré

Pessoa sendo resgatada durante a Procissão do Círio de Nazaré

 

 

Chegada da "santinha" na Avenida Nazaré

Chegada da “santinha” na Avenida Nazaré

 

 

Multidão acompanha a berlinda

Multidão acompanha a berlinda

Fiéis carregam réplicas da padroeira

Fiéis carregam réplicas da padroeira

 

 

Fim de festa

Fim de festa

 

 

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