agosto 2, 2016

E se Belém ficasse fria?

Livremente inspirado no curta “Recife Frio” de Kléber Mendonça Filho, com fotos de Edu Castro

By Bruno Terribas In SINTA

A mídia comercial brasileira, concentrada no eixo Rio-São Paulo, insiste em tratar das reportagens sobre as mudanças de estações do ano como se o país todo vivesse em regiões de clima temperado. E não, como é o caso da maior parte do nosso território, num clima tropical.

Mapa climático do Brasil de acordo com a classificação climática de Köppen.

Mapa climático do Brasil de acordo com a classificação climática de Köppen.

De modo genérico, temos que, em localidades como Belém, que tem clima equatorial úmido (segundo a classificação climática de Köppen), as quatro estações clássicas de regiões temperadas não existem, e sim apenas as estações de chuva e de seca. A “seca” aqui significa apenas não cair um dilúvio por dia, e sim chuvas ocasionais em dias alternados.

Ora, e qual o problema nisso?

Essa abordagem dos meios de comunicação impõe certas pautas que, se não completamente desinteressantes (já que é bonito de ver as imagens anuais da neve nas serras do Sul), promove a exclusão das particularidades regionais nos noticiários nacionais. Qual o nosso interesse em matérias como “Veja dicas para deixar a casa mais aconchegante no inverno” enquanto todos estão planejando qual balneário ir nas férias de verão de julho?

Mas já que a proposta é uniformizar, porque não imaginar como seria nossa úmida e quente cidade submetida a baixas temperaturas?

Te convido a percorrermos juntos um intrigante exercício de imaginação (e realismo mágico), ilustrado pelas incríveis fotos em infravermelho de Edu Castro, sobre os possíveis impactos de uma súbita mudança de clima nos usos e costumes locais. Este texto dialoga com o curta “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho, diretor do excelente “<a href="http://www.osomaoredor buy tadalafil.com.br/” target=”_blank”>O Som ao Redor”. E também com minhas vivências pelo inverno russo atravessando a ferrovia transiberiana.

Belém - Edu Castro

Algumas comidas pesadas cairiam como uma luva e o cochilo depois do almoço viria a calhar

O tacacá, esse delicioso caldo de tucupi quente que é consumido freneticamente nos fins de tarde da cidade, certamente ganharia um novo sentido. Ao invés de pingar de suor com a cuia na mão, ela aqueceria nossos dedos frios e, acompanhada de uma boa pimenta de cheiro, desceria ainda mais gostoso.

Outros pratos típicos como a maniçoba (feijoada da folha da mandioca), o chibé (pirão de farinha com água) e o açaí também seriam melhor digeridos com uma sesta bem dormida no friozinho.

O que seria das nossas praias de rio?

Mesmo em locais frios, a experiência de se observar a imensidão do mar e dos rios segue sendo um atrativo. É de se imaginar que as pessoas continuariam frequentando as orlas, agora agasalhados dos pés à cabeça. Provavelmente o churrasco seria instituído como o prato oficial da areia, servindo como alimento e fonte de calor ao mesmo tempo.

A vida dos bicicleteiros e ciclistas

Os milhares de usuários de bikes teriam um certo alívio. Apesar do desânimo inicial em dar as primeiras pedaladas, praticar essa atividade física seria mais agradável do que é hoje, em especial para os trabalhadores que se deslocam vestidos de uniforme de mangas compridas e calças sob o sol e calor escaldante do Pará.

As pontes naturais

Caso Belém passasse por invernos realmente rigorosos, como os siberianos – daqueles que congelam rios e lagos, o acesso de carros a regiões antes de difícil acesso, como a Ilha do Marajó, seria facilitado. Bastaria uma hora de carro sobre a Baía do Guajará congelada para chegarmos a Soure, por exemplo.

As cervejas Cerpa Weiss e Bock

Com a mudança de clima, perderiam apelo as campanhas de conotação sexual das marcas de cerveja direcionadas ao público masculino heterossexual, sempre ambientadas em praias e com foco na “refrescância”. Na fria Belém, desapareceriam as versões fresh e sub-zero das cervejas, junto com seus baldes de gelo, e surgiriam versões de trigo e escuras produzidas pela Cervejaria Paraense S.A., a Cerpa.

Forte do Castelo, Belém - Edu Castro

Consumo de energia elétrica: empate

As mesmas famílias que hoje gastam centenas de reais com sistemas de ar-condicionado provavelmente os trocariam pela calefação central a gás, enquanto os adeptos do ventilador e janelas abertas seguiriam dependendo da improvisação para esquentar os lares. As empresas que colocam pisos de madeira teriam um grande incremento de negócios, substituindo os hoje quase onipresentes assoalhos frios.

O fim do Ver-O-Peso

Infelizmente o mercado passaria por uma inevitável “gentrificação” ao estilo do Mercadão paulistano. As tentativas atuais de “revitalização” ganhariam um novo impulso, com a construção de um grande galpão fechado e aquecido para ocupar as lonas do Veropa. As novas barracas, agora chamadas de estandes, seriam padronizadas e teriam como proprietários os grandes oligopólios do comércio varejista.

Cairu, a falência

Uma das ausências mais sentidas seria da famosa sorveteria Cairu, que após tentar vender versões com cobertura quente e sorvete frito, sem sucesso, enfrentaria forte crise de identidade da marca. Gelaterias e paleterias tentariam contemplar seu público carente.

A cidade da neve

E se, por fim, as chuvas do nosso cotidiano se transformassem em nevasca, perderíamos grande parte da identidade de Belém, sempre associada à umidade onipresente e às precipitações a qualquer momento.

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Pensando bem, entre perdas e ganhos, é melhor seguirmos abafados, molhados e escapando das mangas caindo das árvores. Essa é a Belém que aprendemos a adorar.

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