outubro 11, 2016

Aberta a temporada de PokeMangas

Ou a dor e a delícia da chuva de mangas

By Bruno Terribas In EXPERIMENTE

mangas

“No verão, chove todo dia. No inverno, chove o dia todo. E vamos andando pelos túneis de mangueiras, nos desviando das que despencam ou das mangas que caem como obuses [granadas]”. – Edyr Augusto, escritor belenense

Pense na sua fruta preferida. Que tal ir morar num lugar onde ela passa cerca de metade do ano (quase) caindo na sua cabeça?

Essa projeção, tornada realidade, foi exatamente o que me aconteceu ao vir morar em Belém, a “Cidade das Mangueiras”.

Agora no início de outubro começaram a cair as primeiras “gotas” da tempestade de mangas. Sim, algumas um pouco verdinhas ainda, mas já o suficiente para matar a saudade de sair capturando pelas calçadas dos bairros Batista Campos e Nazaré.

E como é que tantos exemplares da maior árvore frutífera do mundo – originada do sul e sudeste asiático, notadamente no subcontinente indiano – vieram parar aqui?

Em minhas pesquisas, descobri que os portugueses trouxeram as primeiras no início do século XVII. Em Belém, a Mangifera indica já tinha suas primeiras árvores no final desse mesmo período. Em algumas décadas, demonstrou aos belenenses a superioridade do espaço de sombra que agraciava os pedestres, além do bônus do sabor de seus frutos.

Na virada do século XIX para o XX, a mangueira foi escolhida pelo prefeito Antônio Lemos para simbolizar a concepção urbanística desta metrópole amazônica, inspirado na belle époque parisiense. Era o auge do ciclo da borracha. Desde 1994, as cerca de 12 mil árvores frutíferas foram reconhecidas como patrimônio histórico municipal.

Contudo a vida dos catadores de manga não era fácil naqueles anos, conforme recuperou o historiador Tunai Rehm Costa de Almeida em seu estudo Belém, uma história Ambiental: Representações da Natureza na capital paraense. Para os que se atravessem a usufruir dos frutos públicos, a pena era:

“multa de 100$, expulsão imediata para fora do jardim, parque ou bosque, e pagamento do dano que causar, sendo o infrator detido pelo guarda ou administrador do jardim, para ser entregue á autoridade competente”  [BELÉM, Conselho Municipal: leis e Resoluções Municipaes. Certificados na Administração Municipal do Senador Antonio José de Lemos. Pará. Typographia d’o Pará. 1901]

Livres do perigo de qualquer punição, hoje a colheita de mangas direto do pé é reservada a alguns garotos que se arriscam a subir as mangueiras cada vez mais altas (delineadas pelas podas do poder público municipal).

Aquelas que caem, se não quebram algum vidro de carro, ou rolam para a água suja das sarjetas, propiciam uma situação interessante.

Quando ouvimos aquele crec do galho, e em seguida o barulho da queda da fruta na calçada, os que estamos passando pela rua permanecemos num certo suspense.

E aí… quem vai levar essa pra casa?

Em geral, aquele/a que está mais perto sutilmente se abaixa e sai carregando na mão seu prêmio. Se for dos/as mais experientes, já terá sua sacolinha plástica reservada para este fim.

Espero que meu segundo inverno paraense me reserve ainda mais mangas que o último. Terei o maior prazer em desfrutá-las. In natura, em forma de suco ou doce. Pokemanga… vai!

 

Pokemanga

Comentários

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2 Comments
  1. Marilse Araujo outubro 11, 2016

    Que delicia, queridos! comam muitas mangas e se lembrem de mim, quem sabe vem o sabor (de surpresa) na minha boca, atravessando a Ipiranga aqui em Sao Paulo?
    Beijos, Marilse

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    • Michele outubro 11, 2016

      Marilse, querida! Que o sabor da manguinha aí na sua boca te deixe com ainda mais vontade de vir nos visitar! Estamos te esperando!
      Um beijo! mi

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